domingo, 20 de setembro de 2009

O Gaúcho e os diferentes significados do termo





A origem da palavra gaúcho é centro de controvérsia entre os estudiosos. Independente da origem da palavra é consenso que nos primórdios do seu uso, tinha valor pejorativo:

The immense herds, coupled with Spain’s mercantile system which limited the trade that could be carried on by the colonists, gave rise an outlaw class of contraband traders of hides– gauchos.(Murguia, 1986, p. 307)

O sentido pejorativo da palavra gaúcho, numa e noutra banda, mantém-se, quase inalterado, até meados do século XIX. Azara, Saint-Hilaire, o anônimo de Cinco años en Buenos Aires, Arsène Isabelle, Alcide D’Orbigny, todos são concordes em apresentá-los como homens sem lei nem rei, coureadores, changadores, gaudérios; os campistas pertubadores da paz, a que se refere Bettamio, os vagabundos que tanto alarmavam o governador José Custódio, passado tanto anos, ainda não perderam de todo a mobilidade espantosa, a insolência andarenga, o cunho abarbarado.(Meyer, 1957, p. 21)

A alteração do contexto social alterou o significado da palavra, o termo que era utilizado de forma extremamente depreciativa, sem dúvida, era uma das piores formas de se referir a alguém; com o passar do tempo, entretanto, teve seu significado transformado no ideal do gaúcho herói.

O poema épico Martín Fierro, escrito por José Hernández em 1872, em um estilo que reproduzia a linguagem rural gauchesca, era uma síntese da idealização do gaucho (Borges 1980: 108).A história do gaucho que lutava contra a injustiça do Estado a fim de manter sua liberdade foi transformada em modelo para uma "literatura nacional".(Archetti, 2003)

O texto de José Hernándes, sem dúvida, foi marco para a alteração do significado da palavra na memória coletiva. E diante da história do termo fica evidente a afirmação de Fentress e Wickham:

A memória não se ordena como um texto físico, mas, por mais difícil que seja reconhecê-lo, como o próprio pensamento. Não é um receptáculo passivo, mas sim um processo de reestruturação ativa em que os elementos podem ser retidos, reordenados ou suprimidos.(1994, p. 58)

Provavelmente, se não houvesse documentos escritos do século XVIII e XIX, essa conotação pejorativa já haveria sido perdida, esquecida, apagada da memória social. “ Escrever não só congela a memória como a congela sob formas textuais”(Fentress & Wickham, 1994, p. 22), logo esses textos são a única fonte que podem revelar um significado já não mais empregado.

Acompanhar o processo de transmissão da tradição oral há um processo de reinterpretação. De cada vez que uma tradição é articulada, tem que lhe ser dado um significado apropriado ao contexto, ou ao gênero em que foi articulada. Esta necessidade de reinterpretação está muitas vezes por trás das transformações da própria tradição.(Fentress & Wickham, 1994, p. 109)

Com essa reformulação ao longo dos anos e com o a invenção de um significado positivo para o termo, foram fundados centros com o objetivo de recriar os costumes do gaúcho que incluíam a música, a dança, entre outros elementos da sua cultura. Na passagem abaixo podemos ver o novo significado para o termo:

The gaucho was, first all, equestrian. Learning to ride and rope wild animals from infancy, he could handle his horse, lasso, and “boleadoras” with a great dexterity. A nomad, he had a strong love of freedom and mastery over himself. Prodigal of time and money, his preoccupations went no further than a horse to ride, and a prairie to roam over. The abundant livestock furnished him with food and hides which he traded for his bare necessities. Conditioned by the untamed, primitive life of his environment, he was governed entirely by his instincts; yet he could be deeply superstitious, sentimental, and fatalistic. Rash, brave, and courageous, he was, nevertheless, friendly and hospitable toward friend and strangers alike, and was ever ready to assist a friend in danger. Essentially at peace with man, he was quick to defend his honor and avenge an affront with a lightning thrust of his “facón”.(Murguia, 1986, p. 307)

3 comentários:

  1. Bom que vocês leram. Esse post é um trecho de um trabalho que tive fazer. Quem diria que esse trecho iria causar dúvidas, nem sempre conhecimento trás certezas: "Ignorância é uma benção".

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